Mulher, negra, cozinheira, educadora social, ativista dos movimentos Negro e da População de Rua, cidadão porto-alegrense. Nesta quarta-feira, 8 de julho, o Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD IV – Centro Céu Aberto), mantido pela Associação Educadora São Carlos (AESC), criou o Espaço Denise Pereira Neto, reconhecendo nessa usuária, falecida há um mês, o símbolo da crença dos mais de 60 profissionais que atuam no local em prol da saúde mental: a capacidade, a potência e o protagonismo das pessoas que buscam apoio frente à dependência química e que são acolhidas nesse serviço.

Vanessa (assistente social – Ilê Mulher), Eduardo (psicólogo – CAPS AD IV), Veridiana (apoiadora do MNPR) e Lucas (terapeuta ocupacional – CAPS AD IV) / Fotos: Comunicação AESC

Em um ato simples, mas repleto de significado, foi inaugurada a placa em homenagem a Denise, na qual as manifestações emocionadas de quem conviveu com ela por meio dos equipamentos públicos de saúde, serviços de fortalecimento de vínculos e no cotidiano, ficaram registradas em depoimentos que irão compor um vídeo. A arte, em alusão a uma placa de rua, inclui a ilustração (criação de Eduardo Quos Cezar, funcionário do CAPS AD IV) da personagem com o braço esquerdo erguido com o punho fechado. A chapa de poliestireno está fixada no local onde quem procura o CAPS recebe o primeiro atendimento. Para a equipe que propôs a homenagem, nada mais justo e simbólico.

“Ela defendia uma bandeira que tem muito a ver com nosso trabalho nos CAPS, dentro da singularidade de cada usuário. Nunca devemos homogeneizar a atenção às pessoas. Cada um tem sua história. Ela sempre defendeu o olhar para o sujeito que nós atendemos”, recorda o psicólogo Eduardo Althaus, que atendeu Denise em suas passagens pelo local. O terapeuta ocupacional Lucas Fonseca destaca que Denise não queria obter um benefício pontual. Ela era consciente dos seus direitos sociais e acessava os serviços de forma espontânea, para o bem dela.”

Para a assistente social Vanessa Ribeiro, da Associação Cultural e Beneficente Ilê Mulher, “Denise era extremamente inteligente, articulada e sedutora. Por vezes, tinha rompantes quando estava sob o efeito severo do álcool. Porém, se reinventava, se refazia, recomeçava. Ela foi uma sobrevivente. Saiu do casulo e voou por tudo isso. Era a essência dela”. Veridiana Machado, amiga e apoiadora do Movimento Nacional da População de Rua – Rio Grande do Sul, a homenageada “era vista com muito carinho por outros moradores de rua. Falava enquanto mulher negra, que vivia na rua. A fragilidade da situação em contraposição à forma de resistência. Havia respeito pela pessoa que ela era”, relata.

 

Sobre a personagem

 Denise Pereira Neto, 56 anos, faleceu em 8 de junho de 2020, após complicação do seu estado de saúde. Recorreu ao serviço dos CAPS pela primeira vez em 2018 (à época no Bairro IAPI), devido à dependência de álcool, e, no último ano, esteve em atendimento no CAPS AD IV Centro Céu Aberto. Por muitos anos viveu em situação de rua. No serviço, estabeleceu uma relação de confiança com os profissionais e aceitou fazer os tratamentos propostos pela equipe. Para resguardá-la no período da pandemia de coronavírus, o serviço a encaminhou a um albergue da Capital, em maio. No dia 5 de junho sua situação de saúde se agravou e ela foi internada no Hospital Vila Nova, em Porto Alegre, falecendo três dias depois.

Denise era uma pessoa articulada e com nível de conhecimento superior à média dos demais moradores em situação de rua. Durante o tempo em que foi atendida no CAPS Céu Aberto, fazia rodas de conversa e declamação de poemas para os usuários e, em novembro de 2019, promoveu, com outra usuária, uma oficina de turbantes e de abayomi – bonecas negras feitas de pano, que remetem à ancestralidade africana.

A consciência de Denise em relação à própria condição de saúde e a forma como trabalhava junto a outros moradores em situação de rua, compartilhando seus conhecimentos e experiências, está sendo reconhecida pelos profissionais da saúde do CAPS AD IV Centro Céu Aberto no espaço recém-criado. O caso de Denise exemplifica o protagonismo do usuário e a consciência de sua condição de vida/saúde, algo enaltecido desde a acolhida pelo atendimento multiprofissional nos CAPS mantidos pela AESC e com o apoio da Secretaria Municipal de Saúde e rede de referência.

Inauguração do Espaço Denise Pereira Neto também foi oportunidade para captar imagens e depoimentos que irão compor vídeo sobre o protagonismo dos usuários

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