Um dos cinco sentidos básicos, a audição tem importantes funções como detectar, transmitir e traduzir sons, assim como auxiliar na orientação e comunicação. Porém, para as pessoas surdas ou com algum grau de perda auditiva, superar esse desafio contribui para criar oportunidades de interação, de aprendizado e de educação do público ouvinte.

Na Associação Educadora São Carlos (AESC), existem 32 trabalhadores com limitação auditiva, sendo 13 deles no Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre, e seis no Hospital Nossa Senhora dos Navegantes, em Torres. Além disso, o Hospital Santa Ana, na Capital, oferece o Centro Especializado em Reabilitação (CER II), que assiste à comunidade, via SUS, com atendimento acolhedor e entregas de aparelhos auditivos. Na passagem do Dia Nacional dos Surdos, celebrado em 26 de setembro, engajamento profissional e assistência qualificada são mensagens que fortalecem a integração e o diálogo dentro da instituição, nas mais diversas formas possíveis.

Cássio, em sua estação de trabalho no Hospital Nossa Senhora dos Navegantes, em Torres / Foto: Comunicação AESC

De Jovem Aprendiz à contratação

Cássio Carlos de Souza, 26 anos, trabalha como auxiliar administrativo no Hospital Navegantes. Sua trajetória na unidade de saúde do litoral teve início em 2015, por meio do programa Jovem Aprendiz. A surdez, de nascença, não representou barreiras para o seu desempenho, tanto que a dedicação às suas funções garantiu a contratação, quatro anos atrás. Satisfeito com suas atividades, ele se comunica com colegas tanto pela Língua Brasileira de Sinais (Libras) quanto por mímicas.

Em relação à comunidade surda, ele acredita que “precisamos ter união, não importando as diferenças de opinião sobre política ou qualquer outra área. Vamos focar na unidade, para continuarmos a nossa luta e termos direito à acessibilidade, ao aumento das escolas bilíngues para crianças surdas, sempre unidas, sem deixar que divergências de crenças nos atrapalhem. Temos que lutar pelos nossos direitos e nos manter unidos sempre”, destaca. A data de 26 de setembro, para ele, “é um dia em que celebramos as conquistas da comunidade surda e sua luta pela inclusão na sociedade”.

Orgulho de sua identidade e união pela igualdade

Igualmente dedicado às suas funções e engajado no tema da comunidade surda, David Conceição da Silva, 30, atua há cinco anos como supridor, no setor de Almoxarifado do Hospital Mãe de Deus. Sua limitação, devido ao fato de sua mãe ter contraído rubéola durante a gravidez, só foi detectada aos 4 anos de idade. Desde então, teve acompanhamento médico e usou aparelho auditivo até os 13 anos. Após um intervalo, voltou a utilizar esse recurso aos 22, o que facilitou sua comunicação com ouvintes e auxiliou na interpretação e tradução das informações para outras pessoas surdas.

Na percepção de David, um dos desafios vivenciados nas relações é a necessidade de os ouvintes terem paciência para interagir com pessoas surdas e entenderem algo de Libras. “Os surdos sempre se esforçam. As pessoas escrevem e me chamam para ajudar a traduzir”, relata. Para ele, as principais conquistas da pessoa surda no Brasil são o reconhecimento da Libras como língua e o uso de intérprete nas universidades.

Em relação ao Dia Nacional do Surdo, manifesta que não somente essa data é especial. “Desejo todos dias que todos surdos sintam orgulho de mostrar sua identidade, que têm capacidade de fazer coisas melhores pela igualdade do ser humano. Todos unidos para vencer o preconceito e respeitar uns aos outros”.

David, no Hospital Mãe de Deus, destaca a importância de as pessoas surdas se unirem pela igualdade e pelo respeito mútuo / Foto: Divulgação

Reconhecimento dos gestores

Pamela Fernandes, líder de Almoxarifado no Hospital Mãe de Deus e gestora direta de David, afirma que o aprendizado é mútuo e diário no relacionamento do profissional e a equipe. “O David é referência quando se trata da interação com os demais colegas deficientes auditivos. Ele é tido como nosso intérprete, e mais do que isso, realmente se envolve e tem empatia. Percebemos a importância de aprender a linguagem de sinais para uma melhorar comunicação entre a equipe no dia a dia”, reflete. Um destaque do perfil de David, segundo ela, é que mesmo com as limitações ele consegue se adaptar e encontrar maneiras de interagir e fazer com as coisas deem certo.

Em Torres, o gerente executivo do Hospital Nossa Senhora dos Navegantes, Ademar Soares, descreve Cássio como um profissional diferenciado. “Está sempre alegre e com energia positiva. Gosta muito de trabalhar aqui e se sente bem por ter sido acolhido pela empresa. É muito atento, motivado, competente no que faz e disponível em ajudar os colegas”, ressalta.

Hospital Santa Ana mantém espaço de referência para atendimento a pessoas surdas / Foto: Emmanuel Denauí / Brun Filmes

 

Hospital Santa Ana: assistência à comunidade na Saúde Pública

Há cerca de um ano Porto Alegre conta com um novo integrante da rede de atenção às pessoas com deficiência no Rio Grande do Sul. Os atendimentos do Centro Especializado em Reabilitação Auditiva e Intelectual (CER II), localizado no Hospital Santa Ana, tiveram início em outubro de 2019, com os exames de diagnóstico auditivo. Em fevereiro de 2020, foram realizadas as primeiras entregas de aparelhos auditivos.

De acordo com a coordenadora do CER II, Daniela Razzolini, até o momento foram atendidos 478 pacientes, sendo que 407 já receberam seus aparelhos auditivos. Os 71 pacientes restantes estão aguardando o equipamento.

O paciente mais jovem atendido no CERII tem 16 anos, e o mais idoso 97. A média de idade dos beneficiados é de 82 anos, com leve prevalência do sexo masculino na busca pela reabilitação auditiva. Do total de pacientes adaptados, 207 são homens e 200 são mulheres.

“A oportunidade de poder acompanhar todo o processo de adaptação dos aparelhos auditivos e ver os pacientes mais independentes e motivados para o convivo social, que antes era um grande desafio, é muito gratificante”, descreve Daniela.

 

Paciente relata satisfação com CER II

Antônio Luiz Monteiro, 79 anos, é paciente do CER II, no Hospital Santa Ana. Satisfeito com o atendimento recebido pelos profissionais no local, resolveu externar seu sentimento à equipe. Ele teve redução da capacidade auditiva após os 50 anos, algo que o incomodou no trabalho e na vida pessoal. Após perceber o agravamento, tendo que aumentar o volume da televisão e realizar leitura labial para entender o que as pessoas diziam, resolveu procurar os serviços do CER II, este ano.

“Fui muito bem atendido e comecei o processo, sem saber quanto tempo levaria. Não tinha muita expectativa, mas fiquei surpreso pela forma como tudo foi conduzido e, em pouco tempo, recebi o aparelho. O serviço todo é muito bom, com pessoal atencioso. Fiquei muito satisfeito. Recomendo às pessoas que valorizem esse Centro de Reabilitação, que oferece um serviço excepcional. Já vivi em sete estados do Brasil e não lembro de ser tão bem atendido, nem quando era executivo de empresas multinacionais. Aqui, temos um serviço público que é excepcional. Estou muito feliz e satisfeito”, relata Monteiro.

 

Acessibilidade no Hospital Mãe de Deus

Desde fevereiro de 2020, o Hospital Mãe de Deus oferece a clientes com algum grau de surdez, uma solução inovadora de acessibilidade. Devido a uma parceria com a UnimedPOA e o ICOM – serviço de intermediação entre surdo e ouvinte, pacientes podem acessar uma plataforma digital e facilitar a comunicação com as equipes. De acordo com a diretora de relacionamento com médicos e clientes do HMD, Mariele Chrischon, “o atendimento ao surdo nos serviços de saúde é ainda um grande obstáculo, pois faltam profissionais preparados para atender essa população. O uso da plataforma é rápido e simples. Basta apontar a câmera do celular ou do iPad para o QR CODE e iniciar o atendimento com a intérprete que estará disponível pelo sistema. Nosso objetivo é oferecer cada vez mais acesso aos pacientes que necessitam de atendimento”, destaca.

À esquerda, primeira família beneficiada com a plataforma digital oferecida pelo Hospital Mãe de Deus / Foto: Comunicação AESC

Histórico do Dia Nacional do Surdo

O dia 26 de setembro foi instituído como o Dia do Surdo por ser a data de inauguração do Instituto Nacional de Educação de Surdo (Ines), em 1857, no Rio de Janeiro, que foi a primeira escola para surdos do Brasil. O Ines, inicialmente chamado de Instituto Imperial de Surdos-Mudos, é tido como referência nacional na educação de surdos, mantido pelo Ministério da Educação. A data foi oficializada pelo decreto de lei nº 11.796, em 29 de outubro de 2008. De acordo com o Ministério da Saúde, os surdos constituem 3,2% da população, ou seja, aproximadamente 5,8 milhões de brasileiros.

Deixe uma resposta

Fechar Menu