O cuidado com a saúde mental em um período adverso como o distanciamento social tem recebido atenção da população como um todo. Pesquisa feita com 130 países e divulgada no início do mês de outubro pela Organização Mundial da Saúde (OMS) demonstra um alerta sobre esse tema em diferentes partes do mundo. Os dados apontam que 93% dos países pesquisados interromperam serviços essenciais de saúde mental durante a pandemia do coronavírus. E entre os atingidos estão especialmente as pessoas em situação de vulnerabilidade social.

A Sociedade Brasileira de Psiquiatria e outros órgãos de saúde têm feito diversos alertas sobre o cuidado com a saúde mental e a relação com o Covid-19. Complicações neurológicas e mentais, como delírio, agitação e derrame são alguns dos sintomas que começam a aparecer. Além disso, pessoas com transtornos mentais, neurológicos ou de uso de substâncias também estão mais vulneráveis ​​à infecção pelo novo coronavírus. Diante deste cenário, um desafio bateu à porta dos 155 profissionais que integram os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) sob gestão da Associação Educadora São Carlos (AESC), em Porto Alegre: como manter o atendimento e o cuidado aos pacientes em um período de pandemia e distanciamento?

Inovação no atendimento e cuidado com quem cuida

“Iniciamos com inovações no atendimento e uma atenção específica na saúde mental dos colaboradores da linha de frente”, afirma Arlete Fante, coordenadora de Saúde Mental da AESC. Assim, desde o decreto municipal de março, o ambiente profissional foi repensado do ponto de vista do bem-estar físico e emocional das equipes e dos usuários.

Sobre o cuidado com equipes de trabalho, uma pesquisa recente do ISP – Internacional de Serviços Públicos – sindicato internacional com 30 milhões de filiados pelo mundo, mostra que a instituição acertou em começar pelo cuidado com os seus profissionais.  A pesquisa aponta que no Brasil 63% dos trabalhadores não têm acesso a equipamentos de proteção individual de maneira suficiente, que 69% não tiveram treinamento específico para lidar com pacientes com Covid-19, e que 54% estão em sofrimento psíquico em função deste momento no trabalho.

O trabalho com os CAPS começou pelo uso de todas as ferramentas disponíveis para garantir a segurança dos atendimentos: uso de máscaras, distanciamento controlado, implantação da triagem ativa com atenção aos sintomas desde o início do contato, uso do protetor facial, óculos de produção, entre outros cuidados.  Paralelo a isso, um Plano de Contingência foi elaborado para abordar a questão emocional das equipes, incluindo rodas de conversa nas passagens de turno e espaços de criatividade em que foram desenvolvidas ações com música – como a utilização da canção composta por membro da equipe, o Pagode da Covid, e outras atividades de musicalização – oficinas de meditação, reiki e despressurização. Também foi trabalhado com as equipes o Manifesto do Cuidado em Saúde Mental, uma declaração de crenças utilizada no dia a dia nos atendimentos e materializada por meio da arte e vivências nos ambientes dos Caps, inspiração que culminou na realização da  Semana Interna de Prevenção de Acidentes de Trabalho  (Sipat) de maneira integrada com todas as equipes.

Reinvenção do atendimento na pandemia

Ao adotar os protocolos necessários para prevenção da Covid-19, o cuidado com a saúde física e mental dos seus profissionais, a AESC conseguiu manter a operação dos CAPS, reinventando formas de atendimento e aumentando o alcance ao seu público, que contam com o serviço 24 horas por dia em algumas regiões da capital.

Um dos diferenciais para a elevação do indicador de atendimento foi o monitoramento telefônico de pacientes. “A pandemia gerou mudança no atendimento, mas não alterou a nossa essência, que é de olhar para as pessoas de forma singular, de dialogar com a rede de serviços, de atender as situações de crise e garantir a comunicação da equipe. Presencialmente, tivemos segurança para atuar e, no monitoramento por telefone, mantivemos a expertise técnica e o vínculo que temos como os usuários, favorecendo o cuidado a distância, mesmo em um cenário de incertezas”, afirma Siluane dos Santos Coordenadora do CAPS AD III Sul Centro Sul, situado na Av. Cavalhada, 1930.

Cada terapeuta de referência desenvolveu uma escuta sensível, uma intervenção terapêutica capaz de avaliar a condição do usuário em relação a sua saúde mental. Os cenários encontrados foram os mais distintos: vulnerabilidade, miserabilidade, conflitos familiares, ansiedade, medo do porvir, aumento do uso de substâncias psicoativas. “Avalio que o aumento de pessoas atendidas e o grande número de monitoramentos se dão pelo nosso propósito de trabalho que passa pelo vínculo, cuidado e respeito à singularidade de cada usuário”, comenta Kaciely de Lima Jacino, Coordenadora do CAPS AD III Noroeste/ Humaitá/ Navegantes/ Ilhas, na Avenida Pernambuco, 1700.

O trabalho de acompanhamento contou com relacionamento constante com a rede de atenção básica de saúde municipal. Com a busca ativa focada nos usuários de álcool e drogas nas redondezas do CAPS AD IV Centro Céu Aberto – único do Brasil com atendimento médico 24 horas em sete dias da semana com 20 leitos para tratamento de crises e de casos que necessitem de permanência temporária.- os cuidados utilizados envolvem mecanismos que extrapolam os muros dos CAPS para melhor atender cada paciente.

Danara Dall Agnol, coordenadora do CAPS Céu Aberto, pondera que “foi percebido um aumento nos acolhimentos iniciais, com pessoas atendidas de forma presencial, tanto no espaço da Unidade, como também com atendimentos realizados na rua, no local onde o usuário se instala, reforçando vínculos e sendo resolutivos nos casos, estando sensíveis aos sinais e garantindo a amplificação do acesso ao cuidado com uma equipe qualificada e preparada para o cenário”.

Assim, entre março e setembro de 2020 foi registrado o aumento de 22% dos atendimentos presenciais em relação ao mesmo período de 2019 e mais de 14 mil atendimentos realizados por monitoramento telefônico, conforme gráfico abaixo.

A Associação Educadora São Carlos (AESC) é responsável pela gestão de quatro CAPS: Partenon Lomba do Pinheiro AD III, CAPS Sul Centro-Sul AD III, CAPS Noroeste, Humaitá, Navegantes, Ilhas  AD III e CAPS AD IV Centro Céu Aberto. Os CAPS oferecem cuidados em saúde mental nas comunidades e têm o papel de reduzir o número de internações hospitalares. 

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